Entrevista com o Rei

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Homenagem aos 200 jogos de Marques no Galo

REINALDO

No dia 05 de março, foi feita a justiça: Reinaldo, o nosso Rei, foi eleito o Maior Craque Mineiro de Todos os Tempos, superando em quase 10% o segundo colocado, Tostão, do Cruzeiro. A pesquisa, uma iniciativa do jornalista Roberto Drummond e do Portal UAI/SuperEsportes, durou quase um mês. Mais de uma centena de jogadores dos 4 principais times de Minas Gerais (Atlético, Cruzeiro, América e Villa Nova) foi selecionada para a disputa, e cada torcida elegeu o seu representante na fase final da enquete. Reinaldo dominou a massa alvinegra, obtendo maioria absoluta dos votos atleticanos na primeira fase. 

Na segunda fase, o Rei competiu com os três representantes dos outros times do estado: Tostão (Cruzeiro), Jair Bala (América) e Luizinho (Villa Nova). Novamente o Rei conquistou maioria absoluta, agora entre todas as torcidas de Minas. Quase 54% dos votos foram para o Rei, que agradece à massa e fala sobre a importância da Internet nos dias de hoje: 

“Não se pode desprezar a representatividade da Internet, um segmento muito significativo, um percentual muito interessante. O povo mineiro tem memória. O que eu mais escuto na rua é “Rei, você me deu muita alegria”. O torcedor guarda esses momentos de emoção e os passa para a geração seguinte, quando o ídolo vai virando um mito. O mais legal é que isso é uma coisa do atleticano. As pessoas chegam, me carregam, uns choram, outros perdem a fala. O torcedor do Atlético se identifica de verdade com seus ídolos, e eu tive a felicidade de ter dado muita alegria a essa torcida. Acho muito legal quando essa admiração passa de pai para filho. O garoto deve vibrar mais ainda, porque tem aquela história de ‘quem conta um conto, aumenta um ponto’”. 

Reinaldo nasceu em Ponte Nova, no dia 11/01/1957. Ele não tinha muito contato com a capital mineira. Ponte Nova era mais ligada ao Rio de Janeiro, e isso explica o porquê de os primeiros ídolos do Rei não serem atleticanos.

“Meus primeiros ídolos foram Garrincha, Pelé... depois veio o Jairzinho. Meu irmão jogava no Botafogo, e eu ia sempre para o Rio. Ficava no meio dos jogadores. Era aquela época de 67, 68, quando o Jairzinho era o grande ídolo. Depois eu vim para o Atlético e nem fiquei ligado mais no Rio de Janeiro. Um ídolo que eu observava e queria jogar igual foi o Lola, jogador completo, fantástico. Lola jogou com meu irmão na Seleção Brasileira de Exército. Tem também o Dario, pela sua extravagância, pelo jeito dele.”

O primeiro contato do Rei com seu clube do coração não foi dos mais felizes, porém foi entusiasmante e fez com que o coração do maior craque da história alvinegra batesse mais forte pelas cores branco e preto. O jogo, histórico, aconteceu em 1967. Reinaldo, então com seus 10 anos, jogava bola em frente à varanda de sua casa e os “velhos” escutavam o jogo pelo rádio.  Foi um clássico Atlético x Cruzeiro, e o Galo começou vencendo a partida, abrindo três gols de vantagem sobre o rival, porém o time azul reagiu e chegou ao empate no final da partida. Lacy foi seu primeiro ídolo com o Manto Sagrado, justamente por ter sido o destaque do Galo nesta partida. 

“Lacy também é um de meus ídolos, porque despertou meu primeiro sentimento atleticano. Tudo começou em um Atlético x Cruzeiro, em 1967. Ficava a turma toda jogando bola na rua e escutando o jogo, enquanto os mais velhos ficavam em casa. Primeiro tempo, 2 a 0 pro Galo, começou segundo tempo e o Galo fez 3 a 0. Paramos de jogar bola e começamos a vibrar com o Galo. Eu ainda não sabia muito de Atlético e Cruzeiro, não tinha preferência. Naquela época, os velhos ficavam falando do Cruzeiro, campeão disso, daquilo, então nós começamos a gritar Galo, gritar o nome do Lacy, só para encher o saco deles. Depois veio a decepção, o Cruzeiro foi lá e empatou o jogo, 3 a 3. Fiquei revoltado, mas não tinha como voltar atrás. Só que era difícil acompanhar, porque em Ponte Nova pegava mais a Rádio Globo do Rio”

Seu primeiro contato real com o Galo foi em 1969. Um time misto do Atlético foi jogar em sua cidade, contra a seleção local. Reinaldo conta que ficou deslumbrado com um simples lápis que havia ganho de brinde, que trazia o escudo do Atlético. O Rei lembra, ainda, que este tipo de promoção deveria continuar a ser usada, pois aproxima o jovem torcedor aos símbolos do clube.

“O Atlético foi jogar em Ponte Nova, chegou lá uma Kombi do Galo, e eles me deram de brinde um lápis com o escudinho do Galo. Essas coisas deviam ser feitas ainda hoje, isso pega pra valer. Quando o lápis acabou, quase parei de estudar!”

Não foi desta vez, porém, que Reinaldo teve sua chance no Glorioso. Apenas 2 anos depois, o Galo voltou a Ponte Nova, com o time juvenil. O Rei foi indicado ao então treinador do juvenil, Barbatana, pelo técnico de do time de sua cidade, Dom Miguel. O atacante participou de um treino, contra os titulares que meses depois viriam a conquistar o primeiro Campeonato Brasileiro da história, fez gols, deu dribles desconcertantes e logo foi aprovado.

“Depois o Galo foi lá em 1971 com o time juvenil - na época não tinha júnior. Fui ver o jogo, e o Dom Miguel, que era o treinador do time de Ponte Nova, me levou até o Barbatana e falou: “Esse garoto é bom de bola, não quer levar pro Atlético?”, e ele disse “Vamos lá”. Era um feriado de 7 de setembro, cheguei à noite, sem conhecer Belo Horizonte. No dia seguinte, no Hotel São Bento, na rua Guarani, de manhã cedinho o Barbatana passou lá e fomos treinar na Vila Olímpica. Eu tinha 14 anos, e quem estava lá treinando era aquele time do Galo que viria a ser campeão brasileiro! Como era experiência, fiquei na reserva enquanto o juvenil treinava. Entrei no treino, meti gol, driblei o Grapete pra lá e pra cá, na hora que terminou o treino o Barbatana me chamou, pra eu buscar meus documentos em Ponte Nova. Meus pais vieram, assinei contrato e minha trajetória no Galo começou.”

Reinaldo não esquece dos principais ícones de sua chegada no clube. Barbatana, Sinval Martins e Zé das Camisas são lembrados com carinho pelo Rei: 

“Barbatana e Sinval Martins foram os dois responsáveis principais pela minha vinda para o Galo, me trouxeram, deram escola, fizeram meu contrato. Comecei a jogar no juvenil, mas eu tinha 14 anos. Juvenil era até dezoito, com dezoito já tinha que virar profissional. Zé das Camisas pediu para eu jogar no dente de leite. Foi fácil, jogar com menino de apartamento aqui, já que eu estava acostumado a jogar com marmanjo em Ponte Nova. O primeiro jogo foi no estádio Antonio Carlos, o campo de Lourdes, contra o Nacional do Carmo. Peguei a bola, passei por todo mundo e botei dentro do gol. E a TV Itacolomi transmitia esses jogos para Minas Gerais.”

O atacante era sempre destaque nos jogos das categorias de base do Galo. Prêmios de melhor jogador em campo não faltaram na carreira do nosso Rei, que lembra dos tempos de garoto nas categorias de base do Clube com nostalgia.

“A Mesbla patrocinava as transmissões da Itacolomi, e dava uma bicicleta para o melhor do jogo. Ganhei umas 15 bicicletas, caixas de refrigerante... então, naquela loja ali perto da rodoviária, comecei a pedir dinheiro, eles me davam 250 cruzeiros e eu ficava o dia inteiro gastando na Mesbla, com comida, sorvete, revista... Como os jogos eram televisionados, todo mundo começou a me reparar. O Roberto Drummond me apelidou de Baby Craque. Eram dois, três gols por jogo, fiz 38 gols no campeonato, que tinha umas 15 partidas. Acabou o campeonato do Dente-de-Leite no final de 1971, iniciou 72 e fiquei no infantil. Foi artilheiro do infantil também, aí voltei para o juvenil, já no final do ano. Fomos para a Taça Cidade de São Paulo, e quando voltamos fui liberado para as férias. O pessoal ligou lá e pediu para eu largar as férias e me apresentar ao profissional. Na época, tinha o Torneio do Povo, e o Galo iria jogar contra o Flamengo, deixando um time misto pra Taça Minas Gerais. Então, me colocaram no misto. Entrei contra o Valério, no Mineirão lotado por causa do jogo de fundo. Eu e Marcelo arrebentamos com o jogo, e a massa toda vibrou comigo. Jogo seguinte, em Uberaba, fui lá e meti gol. E em todos os jogos eu metia gol. Terminou o Torneio do Povo e todo mundo voltou pro juvenil, menos eu, que fiquei no profissional, com 16 anos.”

Magoado, com um ar triste, Reinaldo fala sobre sua contusão. Em um dos poucos momentos em que o Rei não sorriu durante a entrevista, ele conta como foi sua primeira cirurgia, os motivos de seu problema crônico e as complicações que se seguiram até a chegada do Dr. Neylor Lasmar ao Galo.

“Tive dificuldades no início. Em meu primeiro campeonato, em 1973, tomei muita porrada.  Eu era menino, jogar como zagueiros como o Brito não era moleza. Aí meu joelho se arrebentou. Não existia peso para musculação, era saquinho de areia mesmo. Não tinha Departamento Médico. O medico do Galo na época estava começando com um consultório de ortopedia... só queria dinheiro. Ele me operou muito mal, e depois disso começou só punção, infiltração, punção, infiltração, ficou só nesse processo, inchava e fazia punção. Saía sangue, pedaço de cartilagem, era um horror. Antes de todos os jogos era isso. Minha perna estava completamente atrofiada. Eu reclamava de dor, com dois meses de operado, não melhorava. O Bibi, que jogava no Galo, tinha o mesmo problema, me levou num japonês que fazia acupuntura. Fui lá, fiz uma, duas sessões, eu não melhorava e o doutor quis me operar de novo. Quando eu falei que não queria operar, porque estava fazendo acupuntura, ele quase me bateu. Então eu aceitei operar lá no Hospital Sarah Kubitschek. Cheguei à noite para internar, e me colocaram na enfermaria pra dormir lá! Não aceitei e vim embora. Da outra vez eu operei no apartamento, porque eu tinha que ficar na enfermaria? Todo mundo gemendo lá, não tinha condição. Operei no apartamento, abriu o mesmo lugar que tinha aberto, mas continuei naquela de punção e infiltração do mesmo jeito. Foi assim até 1975.”

O Rei demonstra gratidão e admiração ao Dr. Neylor Lasmar, que lhe deu condições para desempenhar seu melhor futebol.  Neylor chegou ao Galo em 1975 especialmente para tratar do joelho de Reinaldo, e até hoje chefia o Departamento Médico do clube. Sua ida à Copa de 78, na Argentina, interrompeu seu tratamento intensivo e agravou sua contusão, fazendo com que ele tivesse que se submeter a uma nova cirurgia, desta vez supervisionada pelo Dr. Neylor Lasmar, nos Estados Unidos.

“A gente ia jogar contra um time do Uruguai, Danúbio ou Nacional, não me lembro ao certo, quando apresentaram Neylor como novo chefe do Departamento Médico do Atlético. Na hora que ele viu meu joelho, me tirou do jogo imediatamente. Comecei um tratamento decente, foi aí que eu comecei a me recuperar. Por via oral, tomava cortisona, e fazia cobalterapia por causa da membrana inflamada, artrose, artrite... Eu ficava deitado o dia inteiro, quase não treinava, só me levantava para jogar. Com o tratamento, meu joelho parou de inchar. Mas eu sabia que teria que operar de novo. Quando eu fui pra seleção na Copa de 78, começou a complicar. Com o dr. Neylor aqui, tudo bem, mas se eu mostrasse meu joelho na Seleção, seria cortado. Treinava só de calça para ninguém ver meu joelho, tentei controlar sozinho, mas depois da Copa não teve jeito. Saí direto para operar nos Estados Unidos, um ligamento cruzado já tinha dançado, raspei a cabeça do fêmur e da tíbia. A membrana e a rótula pareciam uma estrela do mar, de tão ásperas. Tive que tirar a membrana, e como não dava para reconstituir o ligamento, perdi a flexão da perna. Só recuperei a flexão em 90 graus, joguei mais dez anos com esses 90 graus. Na verdade, foram raras vezes na minha carreira que eu entrei em campo sem sentir uma dorzinha. Mas com o Neylor, vivi os melhores momentos de minha carreira. Em 75, 76, 77, 78, eu arrebentei”.

O time de 1977 foi, com certeza, o melhor em que Reinaldo jogou. Os jogadores eram amigos dentro e fora de campo, o entrosamento era total e os jogadores eram de qualidade incontestável. O título brasileiro só não veio para belo horizonte por causa da Ditadura Militar, que tirou Reinaldo da partida final, contra o São Paulo, em Belo Horizonte. Ele foi expulso em uma partida logo no início do Campeonato, e o julgamento foi feito apenas na véspera da finalíssima, tendo sido Reinaldo suspenso e impedido de jogar a decisão.

“A gente tinha esse espírito, podia tomar um gol que não mudava nada. Só que tem um detalhe que ninguém atenta no futebol: vivíamos em outro mundo, uma ditadura militar. Você não falava absolutamente nada, não podia! Foi uma palhaçada total minha suspensão na final. Fui expulso na primeira fase e seguraram o julgamento. Aí deram ordem: não joga. Quem deu, não interessa. Nessa época não tinha essa de liminar, vai ter liminar com general, coronel? Ainda tiraram o título do Atlético aqui no Mineirão. O time era tão bom que nem perdeu um jogo. O juiz queria que o São Paulo ganhasse, ainda assim foi para os pênaltis.”

Reinaldo conta como era jogar contra o Cruzeiro. Sua alegria, seu entusiasmo e sua satisfação em dar detalhes sobre o clássico contagiam qualquer pessoa. Ele ri das jogadas combinadas com os companheiros e que enganavam os defensores azuis, dá gargalhadas com as cenas pitorescas que proporcionava à torcida e pede que um dado seja levado ao conhecimento de toda nação atleticana: todos os defensores do Cruzeiro, dos volantes para trás, incluindo o goleiro Raul, foram submetidos a cirurgia de hérnia de disco. Segundo o Rei, de tanto que ele entortou suas colunas.

“Nosso time era muito bom, a base jogava junta desde o juvenil. Tínhamos sistemática de jogo. Barbatana repetia as jogadas várias vezes nos treinos. Então, eu sabia quando a bola chegaria até mim. O Ortiz, goleiro, começava a jogada com os beques, não fazia como hoje, que o goleiro pega a bola e dá um chutão. A zaga era Vantuir e Márcio Paulada. Então, ele saía com o Vantuir, que já via o posicionamento do adversário. Se o cara viesse nele, devolvia para o Ortiz, que saía logo com o Márcio. Futebol é isso, triangulação, bobinho, pôr o adversário na roda. Se o Vantuir não recebesse combate, ele avançava com a bola e jogava no Cerezo. Quando tocava no Cerezo, ele fazia a mesma coisa. Se viesse alguém, voltava com o Vantuir ou o Márcio. Senão, ele carregava a bola. Então, quando os meias pegavam a bola, eu puxava os dois beques. Eu vinha para receber, tocava de volta e imediatamente já passavam os pontas e os meias, corria todo mundo para área, o cruzamento acontecia e era gol. Isso tudo era automatizado na nossa cabeça. Por que existe a tática? Para isso, automatizar. Por isso deve ser tudo repetido nos treinos. No entanto, começou a ficar previsível, então entrava aí nossa criatividade. Contra o Cruzeiro, por exemplo. Quando Marcelo ou Paulo Isidoro pegavam a bola, eu aparecia para receber e devolver. Os beques nem olhavam a bola, eu recebia e já levava porrada. Então eu combinei com eles: toca a bola pra mim, mas toca forte! Na hora que eu vinha pra receber, quando eu ia levar a pancada, abri as pernas e deixei a bola passar por trás do zagueiro. O Mineirão vinha abaixo! Mas isso também ficou previsível, depois que eu fiz várias vezes no primeiro clássico. No segundo clássico, a gente já sabia que na hora que eu deixasse a bola passar, o Darcy ia fazer a cobertura. Foi o que aconteceu, e a torcida do Cruzeiro vibrou na hora. No lance seguinte, eu abri a perna, mas em vez de deixar passar, dei um toque de letra. Aí os dois trombaram! A gente pegava o time do Cruzeiro e brincava. Tinha aquela história do respeito, tudo bem, eles tinham jogadores como Piazza... Mas esses caras não agüentavam mais correria, só sabiam jogar dando porrada. Teve um jogo que o Toninho (Cerezo) pegou a bola com a mão, entregou pro Morais e falou: toma, joga bola! Teve o soco na boca que eu levei do Darcy. Eu ficava na linha do meio-campo quando tinha escanteio para eles. Aí puxamos contra-ataque e a bola foi lançada pra mim. Fiz até pose pra matar no peito. Vi que o Darcy estava esperando eu matar no peito para chegar rasgando. Só que eu não matei no peito, dei um toque de peito pra frente. Ele chegou e meteu a mão na minha boca. Raul, Nelinho, Morais, Darcy, Vanderlei, Piazza e Zé Carlos, todos eles operaram de hérnia de disco! É uma tremenda coincidência, mas é fato. Na final de 1977, o Piazza voltou justamente na final depois da operação. Eu pensei: esse cara está de sacanagem, voltar logo na final! No jogo, já estava 2 a 0, num contra-ataque pela direita, eu dominei a bola e na hora que olhei, estava o Piazza na minha frente. Pensei: não vou driblar. Dei um bico lá na bandeirinha de escanteio e saí correndo. Veio aquele pangaré atrás de mim, eu parei e dei dois dribles desconcertantes nele”

Sobre a final do Campeonato Brasileiro de 1980, Reinaldo preferiu não entrar muito em detalhes. Ele estava feliz, pois iria receber seu troféu de Craque Mineiro de Todos os Tempos, e o assunto não combinava muito com seu estado de espírito. Ele conta, porém, o que aconteceu:

“O Aragão estava prejudicando o Galo. No primeiro tempo, correu tudo bem. No segundo, começou. Você abria a boca e ele te xingava. Foi aí que ele me expulsou. Ele se virou de repente, como se eu tivesse xingado ele, mas eu não falei nada! Como você vai ouvir algo num estádio com 200 mil pessoas? Tem muita história de bastidores, não foi só juiz não, mas melhor não falar disso. A gente estava lá e sentia isso.”

Sobre o jogo da Libertadores, em 1981, contra o mesmo Flamengo, o Rei fala com uma certa desconfiança:

“No ano seguinte, na Libertadores, a mesma coisa. O Flamengo foi o primeiro time a ter patrocínio, da Coca-Cola. O projeto era ser campeão mundial. Então, não tinha como ganhar deles, não adianta!”

Reinaldo falou ainda de sua experiência na Europa, já nos últimos anos de sua carreira.

“Ir para a Europa foi bom, porque aqui eu saía na rua e não tinha sossego, vinham 20 pessoas em cima de mim pedindo autógrafo. Eu tinha acabado de me separar da mulher. Tentei jogar em Manaus, no Nacional, mas lá era a mesma coisa, todo mundo me conhecia. Resolvi ir para a Suécia, jogar no IFK Gotemburgo. Eu tinha uns 30 anos, meti gol no primeiro treino. mas eu jogava só no verão, porque no inverno não tinha jeito. Treinar no gelo era complicado. Eu ficava o dia inteiro dentro da banheira quente, o sueco que morava comigo não deixava ligar o aquecedor! Fui para o Ajax, recomendado pelo Cruyff, e aconteceu a mesma coisa: cheguei fazendo gols. Foi legal essa época, porque eu tinha bastante tempo para mim. Mas voltei logo, porque adoro Belo Horizonte. Não troco isso aqui por nada".

O Rei fica feliz por ter jogado em uma época na qual havia amor à camisa e os jogadores permaneciam em seus clubes por um longo período. Ele acredita que nos dias de hoje, não teria como fazer história no Atlético.

“Se eu jogasse nos dias de hoje, só me veriam no Galo no primeiro campeonato. Não sei quando valeria meu passe, mas seria caro. Meu futebol era bem refinado”. 

Sobre o Belo Horizonte Futebol e Cultura, clube que criou e administra, Reinaldo revela: a decisão de ter seu próprio clube surgiu de uma frustração por não poder ajudar o Galo da maneira que gostaria.

“Criei o Belo Horizonte para ser um clube de competição e formação de jogadores. Nosso objetivo é chegar na primeira divisão. Se tiver um Belo Horizonte x Atlético, vou de coluna do meio! Fiz esse clube para participar do futebol. Eu não preciso ficar no Atlético me humilhando se não me querem por lá. Todo ex-jogador recebe esse tratamento, tipo “lá vem esse cara pedir alguma coisa”. Claro que eu falo de apenas alguns membros da dire

toria, que nunca fizeram nada pelo Atlético e se sentem no direito de me impedir de entrar lá. Já que não me deixaram ajudar no Atlético, fiz isso aqui. Tenho campos de treinamento que o Atlético gostaria de ter. Fiz questão de vender nosso primeiro jogador para o Atlético. O Cruzeiro procurou e eu falei: para o Cruzeiro, só por 1 milhão de dólares. Para o América eu não vou vender, porque ele vai desaparecer lá.  Não entendi porque o Galo fez parceria com o Valério e não com o Belo Horizonte, porque aqui eles poderiam acompanhar o jogador deles muito mais de perto. Propus a parceria ao Sérgio Coelho, mas não foi aceita. Mas essas coisas passam, um dia ainda vou treinar o Atlético, se for a vontade deles”.

O Rei comentou as diferenças entre o futebol na sua época e o futebol nos tempos de hoje, dentro das quatro linhas.

“O futebol é um esporte baseado em força e velocidade. Hoje, os treinadores desprezam os treinos técnicos, mas na verdade é o calendário que não tempo para isso. Jogador profissional não sabe bater um lateral, não sabe cruzar, não sabe dominar a bola e acha que sabe! Um treinador igual o Telê te deixava em forma. E se você está em forma, tudo dá certo. A bola bate em você e entra. Você não vê um jogador profissional ficar repetindo domínio de bola, cruzamento... no máximo treina cobrança de faltas. Você põe o cara para correr. Ele corre, toma a bola de você e entrega para o adversário. Então, o adversário perde a bola de novo, fica naquela de gato e rato”.

Reinaldo se lembra com carinho de dirigentes que fizeram de tudo pelo Galo.

“Fábio Fonseca pegava a calça branca, camisa preta e saía cedo no domingo para assistir a todos os jogos, desde o dente-de-leite até o profissional. Valmir Pereira foi outro que fez um trabalho maravilhoso no Galo”.

O craque não se esqueceu de homenagear um atacante com quem iniciou no Galo e marcou época como seu companheiro de ataque.

“Marcelo foi meu melhor companheiro de ataque. Jogamos juntos desde que eu cheguei, e tem uma coisa que nem todo mundo sabe: namorei a irmã dele”. 

Perguntado sobre quem é o melhor jogador do elenco atual do Galo, Reinaldo abre um sorriso, e questiona se há alguma dúvida de que seja o Marques. Para o Rei, Marques merece um lugar de destaque na história do Clube, junto aos maiores ídolos alvinegros de todos os tempos.

“Marques, hoje, merece um busto feito pelo Atlético. O que ele já fez pelo Galo, pouquíssimos já fizeram. Só conversei com ele uma ou duas vezes, mas o que ele já fez dentro de campo é fantástico.”

No final da entrevista, o Rei mandou um recado a toda a torcida alvinegra.

“Só quem é atleticano sabe como é bom torcer por esse time, que está passando por toda essa turbulência, mas isso só torna as vitórias mais valiosas”.

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